Ao comparar 'Os Novos Mutantes' e 'As Marvels', notamos abordagens drasticamente diferentes, embora ambos orbitam o vasto universo dos super-heróis. 'Os Novos Mutantes', sob a direção de Josh Boone, tentou desesperadamente injetar uma veia de horror psicológico no gênero, transformando um hospital psiquiátrico em uma prisão gótica para mutantes com poderes que são mais maldição do que dádiva. A linguagem visual é intencionalmente sombria, claustrofóbica, e o roteiro se inclina para o drama adolescente com elementos de terror, explorando trauma e isolamento. Já 'As Marvels', comandado por Nia DaCosta, é uma explosão colorida e caótica, um típico espetáculo cósmico da Marvel, mas com a peculiaridade das trocas de poder que adicionam um elemento cômico e de coreografia de ação. O tom é leve, despretensioso, e o roteiro aposta na dinâmica de trio para construir a narrativa, com piadas e ação que a gente já conhece bem. Um tentou ser o estranho na festa, o outro, um convidado barulhento e previsível.
Se você busca uma experiência que ecoe um certo estado de espírito, 'Os Novos Mutantes' pode ser a pedida para uma noite chuvosa, quando a melancolia paira e você está a fim de mergulhar em dilemas existenciais juvenis, onde os poderes são um fardo e a fuga, um sonho distante. É para quem aprecia uma história de amadurecimento com toques sombrios, um certo drama de internato que deu errado, perfeito para sentir um pouco de angústia catártica em um sofá aconchegante. Por outro lado, 'As Marvels' é a dose perfeita de dopamina para quando você está exausto da realidade e precisa de um espetáculo vibrante e descomplicado. É para aquelas noites em que a mente pede férias, e o corpo, uma poltrona macia, pronto para ser bombardeado por cores e explosões, sem precisar pensar muito, apenas se deixar levar pela diversão desenfreada de um grupo de heroínas que, de alguma forma, sempre se safa no final.
Considerando as notas quase idênticas e as intenções tão díspares, como crítico que valoriza a audácia e um certo risco, mesmo que a execução não seja perfeita, hoje eu dedicaria meu tempo a 'Os Novos Mutantes'. Não me entenda mal, 'As Marvels' entrega o que promete, mas 'Os Novos Mutantes', apesar de seus defeitos e sua conturbada produção, arriscou-se a ser algo diferente. É uma aposta em um sabor mais complexo, talvez agridoce, que foge um pouco da receita de bolo que já estamos acostumados. É o filme que, mesmo tropeçando, tentou caminhar por um novo atalho, oferecendo uma experiência mais palpável, mais introspectiva e, sinceramente, mais memorável do que a montanha-russa previsível que a outra opção oferece. Vá assistir para ver um filme que, contra todas as expectativas e pressões de estúdio, ainda conseguiu imprimir uma identidade própria, mesmo que torta.








