Ah, que dilema entre o espetáculo autoral e o feijão com arroz, não é? De um lado, temos Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, onde Sam Raimi, o mestre do horror e do Homem-Aranha original, mergulha de cabeça no multiverso da Marvel com um estilo que grita 'eu sou o diretor!'. A linguagem visual é um delírio gótico-psicodélico, com closes de bonecas de ventríloquo e jump scares que fariam a vovó pular da poltrona. O roteiro, por vezes caótico, é um veículo para a criatividade visual desenfreada de Raimi, que transforma o familiar em algo deliciosamente bizarro. Do outro, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, que, pelo título, me soa como uma história de origem genérica, daquelas que você já viu uma centena de vezes. Imagino uma fotografia limpa, funcional, talvez um roteiro seguro que explica poderes com excesso de exposição científica e atuações que cumprem tabela. Enquanto um tenta reinventar, o outro, presumo, está apenas tentando existir.
Para escolher o seu veneno, pense no seu estado de espírito. Se você acordou com aquela vontade insaciável de ser arrastado por uma montanha-russa emocional, com reviravoltas que desafiam a lógica e visuais que persistem na sua mente, o Doutor Estranho é a pedida. É para a noite em que você está cansado do óbvio, quer uma dose de adrenalina e não tem medo de um pouco de caos existencial regado a pizza e refrigerante. É para quem precisa de um choque na retina e quer ver um diretor brincar com os limites de um gênero. Já o Quarteto Fantástico: Primeiros Passos me parece ideal para quando você está com aquela ressaca mental de tanto pensar, ou apenas busca um pano de fundo seguro, sem grandes surpresas, para um jantar a dois ou uma soneca estratégica no sofá. É um filme para ser degustado sem compromisso, quando você só quer ver os 'primeiros passos' de algo familiar sem ter que se preocupar com as dobras do tempo-espaço ou a sanidade de um mago supremo.








