Ah, dois pesos-pesados do horror moderno, cada um com sua peculiaridade. Entrevista com o Demônio surge como uma joia rara de estilo, mergulhando de cabeça na estética kitsch e na narrativa claustrofóbica dos talk shows noturnos dos anos 70. Os diretores Colin e Cameron Cairnes usam a linguagem visual da época – grãos de filme, cortes abruptos de câmera, o falso ar de improviso de uma transmissão ao vivo – para construir um suspense que se manifesta tanto no espetáculo decrépito da televisão quanto na possessão literal. É um jogo inteligente com o formato mockumentary, onde o roteiro habilidoso e o elenco, especialmente David Dastmalchian, vendem a premissa de um apresentador desesperado por audiência, cujos demônios internos são apenas um prelúdio para os externos. Já Hereditário, de Ari Aster, é uma besta completamente diferente. É uma obra de arte meticulosa de horror gótico familiar, onde a direção é um bisturi que disseca a psique humana. Aster utiliza planos longos e imponentes, um design de som que rasteja sob a pele e um simbolismo visual denso para criar uma atmosfera de pavor inescapável. A cada cena, ele nos imerge em um pesadelo tão finamente trabalhado que a linha entre a doença mental e o sobrenatural se dissolve, apoiado por uma performance estratosférica de Toni Collette que grita a própria dor da alma. Enquanto um constrói seu terror no palco público do espetáculo, o outro o incuba nas sombras da tragédia familiar mais íntima.
Para Entrevista com o Demônio, o momento ideal seria quando você estiver com aquela pontinha de ceticismo afiada, talvez depois de um dia exaustivo de trabalho onde sentiu que tudo era uma performance, uma encenação para a "audiência". É o filme perfeito para quem aprecia um bom comentário social disfarçado de horror, para quem gosta de espiar os bastidores da fama e da decadência. Se você busca uma experiência que, de início, te convida a um sorriso cínico para depois te encurralar com um terror mais direto e quase palpável, como se estivesse vivendo uma lenda urbana televisionada, este é o seu entretenimento. Por outro lado, Hereditário exige um estado de espírito mais sombrio, quase penitente. É para aquelas noites em que a quietude da casa te permite mergulhar nas profundezas de uma angústia existencial, talvez quando você está refletindo sobre os fardos invisíveis que herdamos de nossa família, ou quando a própria ideia de luto parece uma entidade viva e voraz. Não é um filme para preencher o vazio; é um filme que cavará um buraco ainda maior na sua alma e te fará confrontar o quão frágil pode ser a sanidade diante da dor avassaladora e da sensação de um destino inescapável.













