Olha, escolher entre "O Exorcista" e "Hereditário" é como decidir entre a fundação de um império do horror e sua coroa mais perturbadora. William Friedkin, com seu "O Exorcista", nos entregou um terror visceral, quase documental, onde a câmera é uma testemunha implacável da degradação e do desespero. É um filme que respira uma crueza chocante, utilizando efeitos práticos que ainda hoje arrepiam, um design de som que se infiltra na sua alma e atuações de pura catarse, como a de Ellen Burstyn e a jovem Linda Blair. O roteiro é um duelo teológico e psicológico, sem rodeios. Já Ari Aster, em "Hereditário", opta por uma abordagem mais insidiosa, quase cirúrgica. Ele nos serve um terror gótico-psicológico, onde a linguagem visual é meticulosamente crafted, cada enquadramento um pesadelo pintado, cada sussurro um presságio. A genialidade de Toni Collette aqui é o epicentro de uma narrativa que se desenrola como um trauma familiar latente, usando a dor da perda e o luto como um convite para o mais puro e desgraçado horror sobrenatural, tudo isso com a marca registrada da A24 de elevar o gênero a um patamar artístico, mas sem jamais subestimar o poder de um bom susto perturbador.
Se você busca uma noite para questionar a própria sanidade e a fragilidade da fé humana diante de um mal incompreensível, um tipo de horror que esfolia a alma e deixa a mente em frangalhos, então "O Exorcista" é o seu ritual. É para aquele momento em que você está com o espírito aberto para ser verdadeiramente abalado, para confrontar a ideia de que há coisas no mundo que não podem ser explicadas pela ciência ou pela razão, apenas sentidas em sua forma mais pura e aterrorizante. Por outro lado, se a sua alma está mais inclinada a desenterrar segredos familiares dolorosos, a mergulhar em um luto tão profundo que beira a loucura, ou a sentir a pressão sufocante de uma herança maldita que se manifesta de formas chocantemente reais, então "Hereditário" será seu guia turístico para o inferno pessoal. É para quando você quer sentir o horror se infiltrar lentamente, desmanchando sua percepção da realidade e te deixando com uma sensação de desamparo existencial que ecoa por dias.













